11/28/2013

na sala de espera

enquanto esperava
um chinês passou
olhou
viu e se foi
depois uma chinesa
feia e recheada
fiquei olhando as parades vazias
de uma sala
de espera
no centro de Londres
era um lugar pra ser qualquer
menos a pompa
menos o luxo
o carpete creme rasgado
chineses passando
um cheiro de
inseticida e perfume do oriente médio
fiquei parado
olhando as parades
e fazendo
a minha
parte.

11/23/2013

amor se foi
era um dia jovem, belo
amor morreu
restou um novelo de pó e silêncio
amor perdeu suas vestes
abriu mão das ilusões, das luzes
hoje deita no escuro da cela
e sonha, frio.


11/19/2013

Outonal

A morte me pagou várias visitas
neste feio outono, de frio e torpor
trouxe um pote de sensações mistas,
solidão, saudade, tristeza e dor.

Cada folha caída, abandonada,
me lembra a mãe magra, inocente
ela que sobrou em ser amada
hoje morta, é meu sol poente.

A vida copia a natureza
a morte chega em sua certeza
leva a vida para além do sono

faz do sol um negro outono
acaba com som do doce acalanto
que agora ouço, só, num canto.



para minha mãe.

meu outono é vendaval
externo, gélido, real
dentro também me consome
um ser que nem tem nome



11/17/2013

o meu vazio é oco

walk on the wild side
oh moon!
how beautiful you are

inverno

quinze horas de noite
um som negro de fundo
meu suspiro mais forte
o mar das janelas do mundo

vento que corta e gela
ruas de sombras, de folhas
a noite mingua na cela
pequena das minhas escolhas
falar não é bom
pensar
é salvar-se
dizer esfria
ode a noite
lágrima dia
falar amarra
sinal de pare
na lama

11/10/2013

ricardo que amava monica que amava lou reed
morreram todos juntos
separados pelas horas
e pela distância física
meus queridos se foram
deixaram um vácuo no meu mundo
é hora de plantar.
pelo sim pelo não
cresceram
pêlos na mão

11/08/2013

Pedro Marques



Meu chapa, meu camarada. Poeta de ladeira geral. Come papel e cospe cachaça em verso. Se tem um cara que se envolve, ai está um. Bom de prosa, mas mestre na lírica, no arranjo, na composição. Grande moleque dos ritmos e melodias e um irmão pra todas as horas.

Paulo Henriques Britto

Não é meu amigo. Mas pude ler seus poemas enquanto ele ficava me olhando, quase fungando na minha orelha. É um gênio da lírica. Queria poder encontrar os livros dele aqui em Londres.

T.S. Eliot

Ainda não somos amigos. Meus sonhos cabem nos poemas e toda vez que sento pra beber me lembro dos homens ocos. Meu ser fragmentado consegue conversar com esse cara, eu sóbrio nunca.

Juliana Amaral e Humberto Pio

Juliana e Humberto são casados e escrevem. Ela canta e ele desenha. Seus escritos não se beijam nem se deitam. Humberto escreve com o mínimo. Se pudesse, reduziria as letras do alfabeto. Ele vê. Juliana samba mínimo mas escreve cartas. Curtas, médias, longas, todas ridículas. Alucinada.

Felipe Paros

Poeta visual, delicado. Grande sátiro do cotidiano. Poesia e arte visual, amigos estranhos, odeia sua barriga. Abandonou São Paulo.

Pedro Nuno Furtado


O poeta português que coleciona objetos das mais variadas gradações de inutilidade. Mestre em amarelar ambientes. Tem aversão a comida e suas unhas podem perfurar a carapaça de um crocodilo. Habilidoso sonetista. Lírico e sujo.

Camões


Grande amigo. Sonetos que me matam. Foi nome de uma de minhas camas. Usei para despertar vida em seres inanimados. Investigo.

11/06/2013

púbico

meu público é
peludo
tem idade de lobos
é volátil
sente mas não fala
meu público
goza
perde a fala
mas goza
mete o pau
diz a verdade mas não morre
meu púbico
é púbico
soa
ressoa
verte
pessoa sem rosto

Coxinha desafia chefs e ganha recheios criativos.
Wellington reconhece os grandes nomes do metal pela barba.

novo marcador

vendo motes

11/04/2013

a vergonha chegou sozinha
bebeu, comeu e dançou
tímida se foi, ninguém reparou!
moscas na beira da janela
imóveis observam
os meus restos na panela
eu sou doente
meus olhos e pernas
conversam sobre meus erros
tenho sintomas antigos
de doenças ancestrais
eu detesto
não sei mais esconder que sou assim
longe dos homens
apático ao existir dos outros
já fui sadio
sem o horror estampado na têmpora
dava sorrisos na rua e me permitia
hoje sou doente
abandonei a todos para viver
no meu leprosário.

11/03/2013

Nick Cave and the Bad Seeds

Domingo passado fui ver o Nick Cave. Talvez o melhor show que já assisti, pena ter sido num momento tão ruim, tão triste. 
hoje sou mais eu
uma tarde sem vento
um mosteiro ateu

Atol

ilha
sou
pontal
areia
e
sol

Correspondência

para Monika
Desde o Ribeirão do Meio, no encontro do Tâmisa com o Tietê
Um postal como que aponta: a vida continua após a morte… 
Raiz, ruir, Ruiz
Pralém mar, amar é terno (entre gerações)

Humberto Pio

10/22/2013

não poder cagar é morrer

tocaia

toque
uma
aia
per favore!
perfume azedo no cotoco
pescoço de limão
santo do pau oco no sertão

tarde

talvez
amanhã
hoje
não
outono das minhas retinas
as flores que se foram, folhas amarelam
chuva fria nubla os dias
a cidade fica nua em intervalos
episódios curtos nas janelas
o som das vestes negras pelas ruas
minha cidade se veste de adeus
a longa escuridão da cortina que se fecha

10/07/2013

quem goza acalma
cama e alma lavadas
paira no ar o corpo
um porto sem mar
Um dia eu fui lá no Rio. Tinha árvores e gente e um monte de deformações geográficas. Ouvi um samba num lugar chamado buraco quente e conversei com dois cobradores de ônibus sobre questões universais. Assisti a um jogo na geral com dois amigos de Niterói. Um dia eu fui visitar a praia e não havia lugar pra sentar. O mar estava frio e quando sai da água a pele grudava. Não subi o morro pra fazer amizades e nem me apaixonei, mas um dia eu fui até a barra num ônibus cheio de pretos. Não sabia o que fazer naquele lugar então voltei para estar no Rio novamente. Roubaram meu chapéu numa mesa de bar e desloquei o maxilar pulando do palco numa poltrona de cinema. Um dia fui embora do Rio e ficaram por lá muitos ossos por roer.

10/06/2013

este meio enreda em enleios amenos e esquizofrênicos entre aranhas estranhas entro entresujeitado ao exato eterno escavo escapulários escalopes entrecortados e extremos estréio entrando em ensinamentos

somente um zumbido jazz
nessa rima sem ruído
o som de um pernilongo
perfurado

perverso
a palavra estranha
verso por
fazer

perverto
outra ideia sonsa
verto por
prazer

percorro
o verso todo
perverso
pervertido