13/03/2012

o gosto da carne se sente no dente
na língua fica o gosto do presente
o verão se despede
espinhos do limoeiro
me acordam do sonho

heroina

"i'm a man when i put a spike into my vein" (lou reed)

de todas as agulhadas que tomei na veia
nenhuma me fez tão homem quanto você...

olhar para trás

quinze litros de diesel nos meus pulmões
as estradas nunca estiveram tão distantes...
acendo um fósforo e todas as faíscas rasgam a retina
meu cigarro apagou em 2007
arranco vários nacos de cera do ouvido por dia
é de cor mel e cheira a abelhas mortas
as costas agora doem toda vez que saio do banho
pesam duas toneladas nos lombos
será que um dia virá a gota?
quinze mil litros de cachaça no fígado
que ainda resiste empedrado numa das minhas costelas
o resto eu não sei

ao olhar para trás sei que ainda vejo os olhos da escuridão aproximando-se
cada voz que ouço traz um pouco de esquecimento
então sigo maltratando a casca

foi feita pra estrada esburacada!

09/03/2012

rasgo de alma

queria ter uma tesoura bem afiada
pra picotar um pouco da minha alma
plantar as sobras e ver se brotava
um pouco da mais pura calma

queria saber conversar com as coisas
me entreter, numa espécie de sonho
esquecer um pouco que sou de carne

maravilha seria ter-me em pó e poder flutuar
um fuga descente, corrente bem quente
subiria pra bem longe lá no fundo do mar

e quem sabe encontraria bem enrugada,
encharcada e cheia de estrelas do mar,
aquela minha alma triste que esqueci de plantar.

28/02/2012

mamíferos

os peitos explodem e todo o leite invade a sala,
me afogo na brancura da nuvem gordurosa
os peitos gigantes balançam ao som da tempestade
como árvores de copas pesadas flutuam no espaço
cada chapoletada de mamilo no meu corpo
me atira contra o solo lambuzado de terra e nata
rolo pelos cantos e tento evitar o próximo ataque,

desmamo!

27/02/2012

21/02/2012

cão

das lambidas que você me deu na cara só me sobraram as lágrimas cristalizadas de uma primavera esquecida sei perder mas contentar não me interessa um puder ainda me guarda o corpo intacto e maculado e nem a raiva que tu me transmites a cada dia que passa segura o impulso de flutuar na dimensão do esquecimento.

corporeativa

reta e pálida
tua meta
é ser antipática
teus trajes de secretária,
o jeitinho de metal
que chatice
prefiro você num avental...
trilho a curva estrada
debaixo de sol,
de lua estrelada
meu preço, o beijo
lábios são
apenas o começo

15/02/2012

lua cheia
amanhece unhada
pelos gatos

sonho sujo

estávamos caminhando sobre as estruturas de concreto dos prédios mais novos da cidade. o caminho estreito causava vertigem e o suor intenso que atrapalhavam o equilíbrio. éramos muitos e não conhecia ninguém. repentinamente, na passagem de um edifício ao outro, avistamos um obstáculo. era um monte enorme de merda. sua cor era intensa, marrom bem escuro e a textura muito pastosa, semi endurecida pelo tempo de exposição ao ar. as colunas de apoio ao redor do monte de merda estavam besuntadas do mesmo material asqueroso. tínhamos que nos apoiar e para isso, por a mão. fui em primeiro lugar e senti a textura escorregadia e nojenta nas minhas mãos. não dava pra sentir nenhum cheiro, mas a sensação do tato era intensa e repugnante, as mãos e o início dos antebraços estavam bastante salpicados e o suor ajudava a diluir a substância. procurei rapidamente um lugar para lavar as mãos e surgiu uma daquelas latas gigantes que se encontravam em obras antigas. estava cheia de água turva e um pouco suja. lavei as mãos com energia e os braços, mas muitos pontos haviam ressecado e eram difíceis de retirar. ficaram pontos de merda grudados nos pelos e não havia com que esfregar. não vomitei, mas a náusea era inevitável. a certeza de estar sujo me acordou.

09/02/2012

berro

eu grito sim na tua cara, seu nojento
que é pra cortar teu burro espelhamento
esse mostro que cresce cada dia
na sua mente aturdida e doentia

da tua sarna eu bebo as gotas de sangue
do teu desespero mórbido a tua mente
te quero ver sempre o mais distante
te impedir de neste mundo plantar semente

por isso grito pra você sumir
exploda o teu caminho e numa gruta
suma teu corpo e tua podre alma

e o te ver longe eu quero rir
lembrando que o maior filho da puta
não deixou legado nesta fauna.

escape

toda raiva existe pra sair
é um copo cheio que precisa transbordar
um pouco de pasto longo pra se cortar
calar fechando a boca é consentir
em perder-se em si, deixar de rir
sucumbir em desertos de fel e azedume
trancar-se no fosso pútrido de um cortume
toda raiva deve ser expelida
em socos e berros e fúria e valentia
seja humano até na doce tirania
de ser livre da raiva a cada dia.

07/02/2012

aviso número 3

tenha cada vez menos coisas
elas não nos servem de nada
doe tudo para quem gosta de coisas
fique com aquilo que é mais precisoso
e importante nesta dimensão: o corpo.
cuide dele comendo menos
e ingerindo apenas alimentos que você tocou
e que foram processados pelas suas mãos.
não aceite mais óleo de soja, não vá mais a cadeias de fast food
não comemore com pessoas empanturradas de frituras
encontre um bom alambique e compre um pouco de cachaça artesanal
pense, pense bastante nas explosões e aceite a ideia da fragmentação.

aviso número 2

coma menos comida e tome mais água
gaste menos energia, em todos os sentidos,
gaste menos energia elétrica e energia corporal,
gaste menos energia emocional e pense muito,
exija mais da sua mente que de seu corpo,
faça longas caminhadas bem devagar e pense,
pense muito e mentalize as explosões, os tsunamis,
os terremotos, as matanças e as manifestações de dor,
não se envolva, não reze, não ore, não participe de agremiações
nem de seitas e igrejas, não gaste energia com a alma,
vá para mais além e construa uma mente emancipada.

aviso número 1

não se preocupe mais com coisas pequenas
só as preocupações de proporção planetária é que importam
os bancos já trataram de aniquilar a vida humana
e de mãos dadas com a indústria nos legaram uma cegueira transparente
não haverá absolutamente nenhuma chance de sobrevivência
não se esconda, não se altere, não se comova, apenas continue
vão sucumbir aqueles que fugirem para longe no alto espaço
assim como os que nas cavernas mais profundas encontrarem abrigo
a natureza dará conta do recado e todos nós deveremos ir embora
não se preocupe com seu carro amassado
não venda nem compre mais nada e observe um pouco do céu
os bancos já são campeões em tudo, deixe a glória para eles
seja uma pessoa que sabe do fim e que convive bem com o mesmo.

03/02/2012

entardecer de roça

os mugidos chicoteiam nas folhas da mangueira, o pé de siriguela tá carregado e um monte de mutum espreita, os cachorros raspando as costelas no terrão e um monte de nuvens encostadas no canto do céu testemunham o primeiro beijo medroso. os dois já sabem que dali pra frente, é descer a serra na engrenagem. olham um pro outro e escutam os últimos murmúrios do entardecer decididos a arriscar.
barulho de galho seco
o rouco miado
do gato

02/02/2012

desequilibrado

faz dois anos
é caro
eu não conheço
entendeu
pode até ser
ninguém retornou não
eu queria um baratinho
dias pendurada no telefone
já baixou bastante
faz o que isso ai?
pode pegar
mas não tá certinho
difícil de localizar
dai eu posso fazer isso
é ruim né?
fica enchendo o saco
meu medo não é mandar
meu medo é as respostas...


(Poema Feito de Frases Soltas)

01/02/2012

roxy

cinema com pipoca nunca mais
agora é tela plana slimfit 3d caô hd
aquela historinha do ingresso e da lanterna
da musiquinha de vovô, cheirinho de bomboniere,
vestidinhos perfumados,
canelinhas batendo nos assentos da frente
agora virou relíquia

o negócio é smart e você e eu já nos conformamos
que o mundo roxy acabou.

27/01/2012

fingimento

é essa mentira que me mata. essa falta de ânimo alimentada pela falta de norte. fingimento coletivo, todos aqui fingem que trabalham, fingem que estão produzindo algo, que fazem parte de alguma coisa. não existe pertencimento algum, e os clichês rolam escada abaixo na direção do almoço filme de terror. esse desfile de roupinhas provincianas e burocráticas, esse cheiro de produto de limpeza atacado misturado com perfumes natura. quem quer saber de vocês? quem se interessa por vidinhas tão mastigadas e pobrezinhas. e no meio desse lamaçal de ossos eu aqui fingindo atividades. vou ao banheiro e vomito. saem muitas vozes e rostos nesse vômito quente e lá, absorto no ar empesteado e ácido é que me sinto vivo novamente. ao voltar para meu lugar ouço os risos e os telefones tocando e toda uma sorte de bactérias iniciam uma festa no rosto de nós todos e a cada segundo nossa vida acaba e isso nos diferencia, porque eu sei. eu sei que isso não faz o menor sentido.

25/01/2012

capital

coisa sem graça
trabalhar
pra comprar casa

vou em outra direção
ver o filho crescer
semear mais o coração

gastar um pouco contigo
viajar e te fazer
extensão de meu umbigo

criar um pouco de tudo que é sublime
arte, comida, amigos
e torcer pro meu time

viver pra pagar uma casa
tô fora, pois que
esse trauma não passa

24/01/2012

The Fighting Temeraire tugged to her last Berth to be broken up, 1838


Os quadros de William Turner são uma espécie de portal para outra dimensão. O céu, sempre cheio de um sol que pequeno, num canto do quadro, se expande e domina nossos desejos de voo, um abraço de precipício no expectador, que sincero ou medíocre, sempre procura. As tempestades e a calmaria, amálgama da realização pictórica de uma grade de sonhos, recorrentes, ideias de pluralidade e caos. Imagens que nos entregam um desespero gigantesco e que ao mesmo tempo são generosas ao nos presentear as tonalidades e mesclas das cores, degradês, formações densas de um céu praticamente rochoso e leve. Turner é o pintor que nos estapeia com chumaços luminosos de tinta e nos rasga ao meio com as ondas geladas dos mares do norte.

O quadro acima, é acima de tudo um poente. Nele está o fim. Fim de uma era representada pelo galeão apagado, opaco, rebocado pelo potente vapor. Seu deslocamento na direção do poente, a sombra que se confunde com a sombra do fim do dia, as velas presas e amarradas pela última vez. O indicativo de seu desmanche no fogo que sai da chaminé do pequeno rebocador. É o fim, mas é um fim de ouro, iluminado, o metal precioso agora é reflexo nas nuvens e no mar.
gota de chuva
brinco
na tua orelha

23/01/2012

o(ri)fício

então resolve dá cu
roxinho fica o anel de couro
buraquinho dolorido mais dormente
e a língua com gosto grão de bico
o boguinha perde mais 3 preguinhas
areia nem fica mais
dedão sujo forçando e a unha cosquenta
cuspe pra dar aquela azeitada no toiôio
soluça quando pede pra parar
mas ri como se tivesse batido o coccix.
a lua na blusinha
toda espremida
pelos teus peitos