6.22.2016

tentei a teta
torcicolo
tontura
tateei teu tudo
teso toquei o túnel
tonteira
tesão
tantra

metalinguistica

enquanto metia a língua
em teu ânus
calculamos
calculamus
calculânus

por onde ela passa nascem flores

bela tesa bronze
olhos estrangeiros
a rua passarela
a morte da palavra
pedreiros
caminhoneiros
padeiros

estátua castidade
amarela
sempre
Salomé

amarela
comprimido
Pelourinho

amarela
preciso
perdido

1.28.2015

vielas e janelas
espreitam o sol
que reluz nas panelas
varanda alaranjada
um labirinto nos olhos
da namorada
amor de cidade na veia
becos e vielas
os batimentos das ruelas
nas tuas coxas me perco
um entrelaçado de sonhos
suor e pele em vento de popa
teus seios descansam
em minhas pálpebras
meus olhos te respiram
no silêncio do nosso olhar
existe uma canção
doce e azul, como o mar
ser um animal apenas
viver com pouco
bem longe das antenas
no labirinto da cidade
prazer em perder-se
pra depois se encontrar
a ponte se abre
duas gaivotas
na borda do precipício

3.09.2014

Tauane precisa perder peso pois sua vida agitada e interessante não possui lugar para pessoas gordas. Ainda que muito ocupada passa sua vida olhando para a tela de retina do smartphone. Sua coleção de sucessos com os homens lhe permite ser infiel de uma maneira cool. Ela se perde todas as manhãs em devaneios sobre como atingir a cor ideal de seus cabelos. Usa sua linguagem urbana em todas as ocasiões, mesmo que seu interlocutor seja um silvícola. Quando sufocada pela ideia de trocar o lixo, coloca um fone de ouvido. Ontem ela viu um homem peludo na rua e tremeu ao pensar na possibilidade dos pentelhos dele enroscados em sua orelha. Para apagar essas imagens de dúvida e horror entrou numa rede de fastfood e pediu um sanduiche carregado de gordura e esquecimento.

2.25.2014


hoje fui dar aula pra um sueco que estuda administração em Londres, namora uma brasileira e sonha em morar no rio de janeiro pra poder continuar ouvindo funk e torcer pro corinthians. típico efeito colateral da globalização e da seleção natural pós darwiniana. o cara mora no cu de Londres, onde eram as docas, que um dia foi dos "querelles" desdentados tentando sobreviver aos ratos e peste, e hoje, nada mais é que uma outra londres, moderna, deselegante, disfarçada de nova arquitetura e velhos problemas de logística. enfim, levei 50 minutos de metrô pra chegar lá e estava ansioso para conhecer o lugar, afinal eu ainda sou maníaco por lugares inóspitos em grandes cidades. ao sair da estação um viaduto enorme cobria a vista e depois uma autoestrada e a ciclovia fantasma e eu e um céu de gruas e torres de energia, mais depósitos gigantescos de caçambas e palets, e no fundo um teleférico mais alto que o edifíco itália, mas que não ia a lugar nenhum possível de se ver. sabia que um dia encontraria algo germinal de Blade Runner. Fui andando como uma criança embasbacada na sua primeira volta pra casa sozinha. quase no local da aula, num ermo cercado por prédios de lata, madeira e vidro parei pra entender onde estava. uma mulher toda enfeitada passou e também parecia tentar entender onde se encontrava e logo estávamos os dois olhando pro mesmo mapa a menos de dois metros de distância. uma chispa de conversa iniciou-se e logo nos localizamos. perguntei se era comum pra ela andar com aquelas roupas extravagantes e se aquilo a fazia feliz e ela disse que era seu aniversário. então rimos e eu disse que desejava a ela uma noite esplêndida, cheia de estrelinhas invisíveis ao redor da celebração. ela ficou me olhando e disse que estava contente e que eu podia ir pra festa também. ela falava um inglês do gueto de londres, uma mistura de ronronar de gato e faísca africana. olhei pro fim da rua e apontei dizendo que precisava ensinar alguém que estava em algumas daquelas casas tristes a não ser enganado quando fosse ao brasil e disse adeus. ao sair olhei pros lados pra não ser atropelado pelo silêncio do vento, mas logo fui olhar pra trás e quando virei, ela não estava mais lá.

um sim e um não

hoje recebi o telefonema de uma empresa de rh. disseram que eu não saberia lidar com os clientes e que talvez eu me perdesse nas explicações. disseram que eu também precisava ter mostrado mais conhecimento como designer instrucional, papel fundamental do cargo que eu havia pleiteado. estudei por duas semanas tudo que havia a respeito, fiz duas entrevistas de duas horas cada e respondi a todas as respostas de maneira clara e energética (porque aqui as pessoas precisam ser energéticas), mostrei possibilidades de melhoria do ambiente virtual de ensino da empresa em questão, tinha até pensado num app para os caras ficarem mais energéticos no seu nicho de mercado. enfim, na ligação, a mulher que me entrevistou até ensaiou uma voz embargada, o que me comoveu, pois pensei por dois segundos naquela vida triste, destruída pelos padrões sociais e estéticos do corporativismo e da psicologia doente que se aplica nessas empresas do setor de recursos humanos. por um lado senti a frustração imediata de mais uma rejeição e de saber que meu trabalho no Brasil ainda não reflete absolutamente nada por aqui, mas por outro lado, um alívio, ao me saber livre de um escritório oito horas por dia falando em meio tom e sorrindo para pessoas com cara de alface - pior, enriquecendo alguns poucos com meu labor dócil sulamericano.


ontem fui encontrar um tal de Fernando, de Portugal, coordenador de uma escola de português para estrangeiros que nem sede física tem. conversamos por exatamente 27 minutos. ele iniciou a conversa falando da maria bethânia e eu terminei citando florbela espanca. apertamos as mãos sabendo que num futuro próximo poderemos tomar um porto e falar de poesia e de lambuja ganhei alguns alunos. dou aula hoje no fim do dia. em breve terei um monte de alunos, conheço meu percurso.

saldo: descarregar e carregar caminhões, ensinar palavras com ~ para pessoas que não conseguem nasalizar e continuar escrevendo coisas inúteis bem mais necessárias a essa falta generalizada de oxigênio!

eu sei que o mundo anda estranho, violento, disforme, cheio de rancor e sangue. eu sei que muitas sociedades estão em plena erupção, por sentirem-se violentadas por tantas gerações, eu sei que o meu país está cheio de contradições, de pessoas loucas dizendo atrocidades, de gente que também quer transformar tudo numa coisa mais humana, e até aqueles que realmente acreditam que vão mudar o mundo, mesmo sabendo da furada. eu sei que tudo tem preço e que o valor é tão relativo como a dor de dente alheia. eu sei que ninguém que recebe salário está satisfeito, e o que se comprava ontem, hoje é só de olhar. também sei que muitos amigos preferem a política e a sociedade mais justa e outros estão com mães doentes e tantos outros ouvindo trilhas sonoras de novelas de 1981 e mais outros que nem sabem que existem, ligados num interruptor dia noite dia noite. eu sei que ninguém está satisfeito e por isso mesmo o bom é ter o que buscar, mas a miopia é vasta. sei que o rio de janeiro não é sampa apesar dos problemas serem a diferente cor das fardas. também sei que estou longe e que as vezes é muito importante manter-se calado quando tantos gritam e pelejam. eu sei que a dor minha tem um canto parecido com a dos meus iguais e por isso mesmo que eu não sei tudo, só um pouco mesmo. na busca de um mundo menos cruel ainda é preciso pagar uns minutos pensando no que os dias vividos se transformaram, se houve algum instante que nada antes havia sido assim, se houve algum encontro com o inesperado, se houve ganho fora da esfera das carteiras, sejam elas fixas ou móveis. eu sei que o mundo grita por amor e mais cuidado e que estamos todos amarrados a contratos sociais antigos, mascarados das mais diversas liberdades e adulações. eu sei que nosso tempo está cada vez mais curto, que os dias têm sido encurtados por caixas e caixas de mensagens, metralhadoras virtuais. e toda vez que ando pelas ruas desta cidade antiga eu olho pro chão procurando um bilhete daqueles que todo vagabundo deseja encontrar. eu olho pro chão e pro céu cinza, eu não sei mais se é tão cinza assim. ainda sei que vivo no bairro morto, cheio de velhos judeus, americanos empreendedores superdotados vips plugados e orientais que nunca riram depois dos 11 anos de idade. tá tudo muito esquisito, eu preciso correr pro bar que vende cerveja barata, uns 10 quarteirões de casa para lá ver pessoas que falam e, mesmo que mal humoradas, persistem em estar vivas. eu sei que em breve um outro bairro vai me acolher e que novas certezas de que os vizinhos são um impedimento e que os seres humanos me cansam surgirão, mas até lá, espero ansiosamente que nada fique como está.

supermercados ainda estão na lista dos meus passeios favoritos. as pessoas querem que tudo seja rápido e prático. eu não. fico uma hora no mínimo. a literatura oculta nos rótulos, a arte do empilhamento, as garrafas e seus líquidos coloridos. a parte dos produtos poloneses, indianos, jamaicanos. cinquenta tons de azeite. as conversas perdidas nos corredores. todas as possibilidades de bacon e presunto e cogumelos. azeitonas judias ao lado de pimentas árabes. leite orgânico de semente de maconha. fico mais meia hora pra entender se esse mundo tem alguma chance de sobrevida. um dia tudo foi só caça e sexo.
hoje acordou um dia cinza lindo, prateado, úmido, cheio de núvens invisíveis formando único lençol fosco. o sol nem se atreve, gaivotas histéricas gritam penduradas nas chaminés seculares e de vez em quando dá pra sentir o vento do norte bater na janela. o vento que vem lá dos fiordes, ou da groelândia, ou de algum lugar onde frankestein possa ainda estar escondido.